Em 1973, enquanto o mundo falava no primeiro lançamento global simultâneo de um álbum, The Dark Side of the Moon chegou às lojas em 1.º de março e, em questão de dias, ultrapassava 400 mil cópias só nos Estados Unidos. A notícia que circulou nos estúdios Abbey Road naquela semana, porém, não era apenas a previsão de que o disco ficaria 741 semanas consecutivas na parada Billboard 200: produtores e técnicos comentavam que Paul McCartney havia sido convidado a participar das gravações e, surpreendentemente, acabou rejeitado. O episódio, mantido em off por quase cinco décadas, voltou à tona quando o documentário The Dark Side of the Moon: The Making of the Pink Floyd Masterpiece revelou que as falas do Beatle foram descartadas por Roger Waters por soar “artificiais demais” para o clima de confessional espontâneo que o grupo buscava.

O contexto era propício a colaborações cruzadas. Dezembro de 1972 encontrava Abbey Road dividido em três blocos de trabalho: oito horas diárias reservadas ao Pink Floyd, outras oito para Paul McCartney & Wings que finalizavam Red Rose Speedway, e as horas restantes para mixagens avulsas. Waters, então com 29 anos, co-produzia com Chris Thomas e Alan Parsons, colecionando frases de roadies, engenheiros e músicos que por ali passassem, tudo captado num Nagra III de quatro canais a 15 ips. O método era simples: perguntas como “Você gosta de morrer?” ou “O que é a loucura?” serviam de isca para improvisos que depois seriam picotados e espalhados entre faixas como Us and Them e Eclipse. McCartney, curioso com o processo, topou responder o questionário. Segundo o diário de estúdio de Parsons, em 15 de janeiro de 1973, Paul levou cerca de 25 minutos para concluir a sessão, acompanhado de Linda Eastman e do produtor Henry McCullough. As fitas mostram-no trocando piadas antes de cada resposta, o que desagradou Waters: “Ele estava fazendo stand-up, não era o tom de vulnerabilidade que eu queria”, declarou mais tarde. As bobinas com a voz de McCartney nunca foram catalogadas oficialmente; ficaram arquivadas como “rejeitadas – P.M.” na planilha de 31 de janeço.

Além do quase-cameo de McCartney, o disco beneficiou-se de uma engrenagem técnica inédita. Foram utilizadas 16 faixas de fita analógica pela primeira vez no estúdio, permitindo que Parsons criasse loops de voz e piano que, replicados em ciclos de 1,5 segundo, geraram a textura de On the Run. O álbum consumiu cerca de 1.100 horas de estúdio — valor alto até para os padrões pós-Sgt. Pepper’s — e custou £90 mil (o equivalente a aproximadamente £1,2 milhão hoje). A performance comercial foi imediata: no Reino Unido, estreou em número dois, atrás apenas de Slayed? do Slade, e produziu dois singles, Money e Time, que alcançaram #13 e #31 respectivamente na Billboard. A turnê de suporte percorreu 93 datas na América do Norte e 51 na Europa, com ingressos esgotados em 87% dos locais, segundo relatório da EMI de 1974. Curiosamente, a única participação efetiva de um Beatle em álbum do Pink Floyd ocorreria anos depois, quando Richard Wright convidou Ringo Starr para bater em Sunset Strip, faixa do disco solo Broken China (1996).

A rejeição de McCartney não impediu que os caminhos dos grupos voltassem a se cruzar. Em 1975, David Gilmour participou das sessões de Venus and Mars gravando guitarras para Rock Show, e em 1979 Paul e Linda assistiram a três shows do The Wall no Earls Court. Já Waters, em entrevista à BBC de 1987, minimizou o incidente: “Não havia nada de pessoal; simplesmente não cabia naquele momento”. O lendário engenheiro Alan Parsons, por sua vez, credita ao quase-cameo a origem de uma amizade que levou McCartney a convidá-lo para produzir Red Rose Speedway e, mais tarde, Tug of War. As fitas originais com as respostas de Paul permanecem perdidas, mas a lenda alimenta colecionadores: cópias clandestinas de sete polegadas circulam por preços que chegam a £3 mil em leilões especializados, reforçando o fascínio em torno de um encontro que quase mudou a história de um dos álbuns mais influentes do século XX.

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