No começo de outubro, o Mill Valley Film Festival recebeu a sessão especial de Metallica Saved My Life, documentário dirigido por Jonas Åkerlund que, segundo a banda, “vira a câmera 180 graus” para focar não nos músicos, mas na plateia que os segue desde 1981. A exibição antecedeu shows da turnê M72 e reuniu fãs de três gerações — exatamente o fenômeno que James Hetfield ainda se surpreende em ver: “Crianças pequenas na frente, gente idosa na frente, cadeirantes na frente… É uma mistura de origens, histórias e pessoas”, disse ele ao CBS This Morning. O longa, ainda sem data comercial definida, circula apenas em sessões festivaleiras ligadas à rota norte-americana da gira, reforçando o discurso de que o público é coautor da narrativa do grupo.
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O projeto nasceu durante as pausas da M72, quando a produção convidou seguidores de 23 países a enviar depoimentos em vídeo. Das 1.400 horas de material, Åkerlund e sua equipe montaram 92 minutos finais que alternam histórias de vida — transexuais brasileiros, veteranos de guerra norte-americanos, adolescentes japoneses — com imagens de arquivo das próprias apresentações. A sonorização segue o protocolo Metallica: todas as faixas são masterizadas em 96 kHz/24-bits no estúdio HQ de San Rafael, Califórnia, com mixagem de Greg Fidelman, mesmo engenheiro de Hardwired… to Self-Destruct (2016) e do álbum ao vivo S&M2 (2020). A banda não compôs música nova para o filme; optou por deixar que clássicos como Master of Puppets e Fade to Black reaparecessem em versões de concerto, mas com pausas deliberadas para que as falas dos fãs ocupassem o centro da trilha.
Lars Ulrich, que participou do painel pós-projeção, destacou números: 2,5 milhão de ingressos vendidos na M72 até o momento, 68% de recompra de público entre as duas noites de cada cidade — formato inédito que repete o setlist completo em dias consecutivos — e 42% de compradores de primeira viagem em shows da banda. O baterista reforçou que o documentário “não é merchandising”, já que o orçamento, segundo fontes da produção, ficou abaixo de 1,2 milhão de dólares, financiado pela própria Blackened Recordings, selo independente criado em 2012 após o fim do contrato com a Warner. A estética de Åkerlund — conhecido por clipes de Beyoncé, Madonna e Rammstein — mantém o preto-e-branco dominante, com inserções de 16 mm colorido em trechos que mostram fãs tatuando o logotipo ninja star ou transformando baquetas em brincos.
Fora das telas, a banda aproveitou a rota do festival para gravar duas novas faixas em formato garage demo no estúdio pessoal de Hetfield, material que, segundo o vocalista, “pode ou não virar disco”. Enquanto isso, o catálogo digital ganhou remasterizações em alta resolução de Load e Reload, ambos lançados em 96 kHz/24-bits nas plataformas de streaming, com peak levels reduzidos para ganhar dinâmica. A turnê segue até setembro de 2024, com datas adicionais na Europa anunciadas em dezembro, e o documentário continua sendo exibido apenas para plateias que compraram ingressos dos shows — política que, segundo o empresário Peter Mensch, “mantém o filme dentro da comunidade que o inspirou”.